Desabrigo  (Antonio Fraga)

Desabrigo e Outras Narrativas
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Um dos últimos livros que li para disciplina no curso de Letras na UFPR antes de trancá-lo foi “Desabrigo”, o primeiro do carioca Antonio Fraga. Num livrinho curto, escrito em 1942, é contada a história do Cobrinha, um malandro que vivia entre os soldados, bêbados e prostitutas da região do Mangue, no Rio de Janeiro. Mas cenário e o desenrolar da história são secundários frente à revolução que Fraga fez com a forma de escrever.

Com tiradas que fazem saltar aquele sorrisinho no canto da boca e deboches a gramatiqueiros e tradicionalistas da Língua, ele encheu o texto de Desabrigo   de gírias e estava pouco se lixando para pontos, maiúsculas e vírgulas. Longe de ser um Zé ignorante, Fraga dominava com excelência o Inglês e o Francês, colocando inclusive algumas frases em língua estrangeira em meio ao texto em um Português que mais brasileiro e da rua, impossível.

O carioca não só deu voz às figuras marginais do Rio na época, como a objetos, recurso tal que não costumava ser visto com bons olhos na época. Se tem alguém que levou ao pé da letra a máxima de “é preciso saber as regras para quebrá-las”, esse alguém foi o Fraga. Mestre em trazer a oralidade para o papel e responsável por tocar o fuá na cena intelectual do Rio, ele provou em Desabrigo que pode e a mãe não morre se desafiar a Gramática e os bons costumes. O texto é curto, mas vá com calma: tem horas que não dá pra entender patavinas

Avaliação: 4/5

⇢ “Deu as palas pros pivas numa gaitolina alta e disse que era escolado que mulher com ele tinha é que meter os peitos senão mandava mandar Dentro do barraco durvalina que tava escutando tudo fez cara de ‘o seu dia chegará’”

⇢ “O grande estilista professor doutor josé guerreiro murta assim opina sobre o uso da gíria no seu ‘como se aprende a redigir’ ‘É preciso banir da arte a baixeza e a grosseria. Se a literatura é uma arte, não pode aceitar tudo o que entra na linguagem trivial. Impõe-se uma escolha, mesmo quando se faz falar a gente do povo… Se o calão invadisse a literatura honesta, o nobre ofício de escritor tornar-se-ia desprezível e ajudaria a corromper os costumes’” — Ao qual Fraga riu alto.

⇢ “Embora a cara fosse mais lisa que uma tábua era pra minha quimba a tábua de salvação Andava atrasadinho e falou pra tábua:

– Quer me fazer uma caridade neguinha?

Mas a neguinha não era do salvation army e respondeu perguntando

– Tu não se enxerga?”

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