Fake news, fake tudo: a derrocada da realidade

Imagem: Adam Lupton

Posso chutar com certa segurança que toda pessoa, no ápice de seu ócio infantil, já parou para questionar a realidade: “Será que o azul que eu enxergo é o mesmo azul que o meu amiguinho enxerga?” Bom, e se isso não aconteceu até os seus cinco anos de idade, não faltaram filmes do Matrix para incentivar o questionamento no período da adolescência. Orbitando as reflexões sobre realidade, está a indagação sobre a Verdade e o Fato. No fim do dia, no que podemos acreditar?

Fake news

Nunca se falou tanto em “fake news”. As notícias distorcidas, disseminadas a rodo nas redes sociais hoje, também são mais velhas que andar pra frente. Antes mesmo de Gutenberg, fake news rodavam o mundo no formato da boa e velha fofoca na janela. Aliás, os veículos de comunicação vieram para sanar a mentiraiada e papo de boteco que rodava o mundo noticiando causos; o objetivo era centralizar informações, fornecendo ao público uma “garantia de veracidade”.

Da Folha de S.Paulo ao NY Times, os grandes veículos de comunicação se estabeleceram no topo depois anos buscando prover informação de qualidade, boas investigações jornalísticas e textos primorosos. Mas em tempos de “Zap”, o que vale é a manchete, mesmo que venha de um “jornal online” criado literalmente ontem.

Bom, se a informação falada e a imprensa são passíveis de mentira, só podemos acreditar sem receio em algo se vimos a coisa ou o evento com nossos próprios olhos. Sendo assim, fotos são provas de realidade, certo?

“Photoshopados”

Embora a manipulação de imagens tenha se popularizado e se aperfeiçoado desde a criação do Photoshop, em 1990, ela existe há muito mais tempo que isso. Niépce mal tinha terminado de inventar a fotografia, na primeira metade do século XIX, quando a galera já usava de sua criatividade e destreza para retocar e manipular imagens.

Cabeça de Licoln, corpinho de Calhoun.

Sem a interface do software da Adobe, eram usadas técnicas de pintura na impressão ou de recortes no próprio negativo. E o resultado não ficava ruim, não! Um dos mais icônicos retratos do ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln é na verdade uma montagem: a cabeça de Lincoln foi colocada no corpo de um político chamado John Calhoun. No início do século XX, a manipulação de imagens era algo recorrente e usada para os mais diversos fins: desde unir famílias distantes em um mesmo retrato até fazer publicidade – e propaganda política, claro!

As imagens fake já deram pano pra manga em diversas discussões e, com a facilidade de postar no “Feice” e de mandar um “Zap”, têm sido usadas com mais frequência nos últimos anos com o intuito de respaldar difamações políticas e pessoais, bem como fomentar teorias da conspiração. Contudo, ainda que resvale no mesmo erro frequentemente, o mundo já aprendeu que existe Photoshop e que uma imagem, seja de uma modelo na capa da Playboy (RIP) ou de um político em um contexto questionável, podem ser facilmente “Photoshopadas”.

Pois bem, se não se pode confiar na boca miúda, nem nos textos, nem nas fotos… sobra o vídeo. Afinal, um vídeo é a realidade escancarada a cada frame, certo?

Deepfakes: os fake vídeos

Os céticos encontram no vídeo o último bastião do registro de realidade; a verdade sobre aquilo que não presenciamos pessoalmente. Mas isso está a um clique de se desmoronar completamente. Com tecnologias de reconhecimento facial, realidade virtual e machine learning, já é possível hoje encontrar em sites pornô vídeos de atores famosos (sejamos honestos, 99.9% são atrizes, claro) em contextos sexuais.

A sex tape de Gal Gadot, atriz do filme Mulher Maravilha, satisfazendo seus desejos entre quatro paredes com um suposto meio-irmão, seria um escândalo se não fosse declaradamente fake. “Mas é perfeito! Olha lá a cara dela! Tá no vídeo!”. Tá sim, mas é fake, falso, manipulado, tão mentiroso e montado quanto a foto do Lincoln, Lady Gaga na campanha da Versace e do turista no WTC em 11 de setembro.

Pesquisadores conseguem controlar expressões em vídeos usando AI.

A obra de arte malígna tem autoria da deepfakes, inteligência artificial que usa as já mencionadas tecnologias para criar fakes e boatos, espalhando conteúdo manipulado em redes sociais, no famosos Reddit e em Pornhubs da vida.

(Aliás, já percebeu como a indústria pornô é avant-garde em termos de tecnologia? Vídeo online, pagamento via Bitcoin, 3D e vídeos fabricados… tudo parece chegar antes à indústria do sexo e isso Freud explica muito bem explicado!)

Artigo no HackerNoon explica como funciona
o DeepFakes e seu potencial destrutivo:
https://hackernoon.com/exploring-deepfakes-20c9947c22d9

Realidade corrompida

Vídeos manipulados vão criar um novo e compreensível ceticismo sobre tudo aquilo a que assistimos. Políticos e publicitários vão explorar essas dúvidas, escreveu Franklin Foer, jornalista do The Atlantic, em uma matéria foda sobre os Fake Videos The End of Reality (The Atlantic). Nesta matéria, o jornalista aborda ainda como a realidade virtual (VR) pode potencializar essa disrupção da realidade comum, com seus óculos tecnológicos e conteúdos capazes de criar respostas emocionais e experiências mais reais que o real – e, sim, aparentemente isso é possível.

Não é necessário ler Homero ou Virgílio – embora a leitura valha muito à pena – para saber que pouco mudou na humanidade nesse meio tempo. Quer dizer, mudaram as prioridades de vida, a tecnologia, a forma com que as pessoas se relacionam e como vivem, mas o Homem, no âmago, continua o mesmo. Desejo, medo, raiva, amor, ganância, bondade, vingança e fome por poder: em pleno século XXI, continuamos sendo Odisseus, Agamemnons, Didos e Eneias tentando navegar pela existência em busca de algum sentido em nosso mundo e na relação com o Outro, baseando-se na confiança – até onde ela vai?

“Not Everything That Goes Around Comes Back Around” – Adam Lupton

Uma das grandes epifanias que tive durante a não-concluída faculdade de Jornalismo foi logo nos primeiros meses, quando me dei conta de que a tal da imparcialidade nas matérias, requisitada por leitores e até jornalistas, era simplesmente impossível. O simples fato de escolher ou não noticiar algo, o simples fato de colocar um indivíduo X como sujeito na manchete como primeira ou última palavra já são ações movidas por convicções e vontades pessoais, afirmou uma professora na época (sem aspas porque faz muito tempo e não foi exatamente isso que ela disse, mas a ideia era essa, desculpe minha memória).

Pimba! Era óbvio! A Psicologia dá a letra: toda ação e palavra que expelimos ao mundo já vem parcial por natureza. Não existe realidade, mas realidades. E em se tratando de século XXI, tempo de fake news, Photoshop e Facebook, bota plural nisso!

Flaflurizar: o verbo da vez

Certa vez li em um texto um quote atribuído a Mark Twain que dizia que por vezes as pessoas usam pesquisas e Estatística como bêbados usam um poste: mais para apoio do que para iluminação. Essa analogia pode ser aplicada à forma como consumimos informação hoje, especialmente no contexto Brasil-2018-Lava-Jato-Eleições.

flaflurizar
verbo transitivo direto
transformar todo e qualquer acontecimento em uma final FLA X FLU

(o evento foi flaflurizado pela mídia.)

O neologismo do ano na Língua Portuguesa, aliás, deveria ser o verbo “flaflurizar“: do meu Aurélio pessoal de neologismos, transformar todo e qualquer acontecimento em um grande FLA X FLU. Assim como o clássico carioca entre Flamengo e Fluminense, nessa perspectiva de eventos a emoção e adrenalina entram em campo e a razão sequer sai do vestiário.

Como bêbados em poste, usamos as informações disponíveis para sustentar posições, provar pontos e ter razão, independente de fake news, foto ou o vídeo manipulados, enquanto deveríamos ter a humildade e inteligência de aprender com fatos e navegar na imparcialidade, buscando diminui-la a um nível saudável e coerente.

Mas mudar de opinião em 2018 é virar a casaca e fazer gol contra. E flaflurizando rumamos ao colapso de múltiplas realidades, incluindo a sua e a minha. O desafio é e sempre foi na raia do caráter.

1 thought on “Fake news, fake tudo: a derrocada da realidade

  1. Bruna, querida!

    Pouco entro no meu Facebook. Perdi a paciência para as bobagens que são propagadas por lá. Vai desde primos bradando um futuro distópico com o BolsoPalmito, ou o infortúnio na prisão do LulaLá. Isso agora! Porque antes, a polarização e questões estavam no reflexo de preconceitos ou ignorância. Passaram?

    Hoje, nesse momento em que escrevo pra ti, deparo-me com a tua lucidez forjada em teclas. Me recuso a dar um like. Tento dar mais valor ao teu brilhante texto sem promover algoritmos ou ou alguma discórdia de haters em meio ao elogio.

    Por mais consciência e textos sensíveis como esse!

    Segue meu 👍🏻

    Parabéns! Super beijo!

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