Livre para Crescer ( A. Sedlmayr)

Livre para Crescer: Sustentabilidade emocional, parentalidade com apego e unschooling
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Livre para Crescer é um apanhado de ideias da ativista do direito das crianças Agnes Sedlmayr. O foco é o desenvolvimento infantil e como a escolarização e seus métodos prejudicam o crescimento físico e emocional das crianças. A obra é recheada de pensamentos um bocado polêmicos e é sustentada por uma aversão completa a qualquer tipo de ensino formalizado.

A leitura de Livre para Crescer traz reflexões interessantes sobre liberdade e relações interpessoais, inclusive com exemplos pessoais da autora, que optou por seguir com um processo de Desescolarização com os próprios filhos. Discordei de boa parte das posições da autora, mas ela traz pontos de vista interessantes e põe à luz boas verdades sobre a educação infantil. Seguem alguns trechos — imho, alguns trazem nonsense, outros, verdades:

Avaliação: 3/5
Quotes:

⇢ “Tratamos as crianças da nossa vida da mesma forma como tratamos os nossos amigos adultos? A maioria dos adultos nunca se lembraria de falar com amigos assim como fala para seus filhos. Para uma criança, diz-se com pleno à vontade: “Não te vou ajudar para ver se chegas lá sozinho!”, ou, “Não podes comer mais disto, agora tens de comer aquilo!” ou “Partiste este copo, não sabes ter cuidado!!?”, ou, “Diz obrigada, diz olá, pede desculpa…”, ou, “Caíste? Bem feito, eu bem te avisei para não ires para ali!” etc., etc.”

⇢ “A criança que sucumbe às exigências manipulativas, torna-se a “criança boa, dócil, fácil”, mas com o preço de se sentir inferior ao adulto, à sua mercê, dependente duma autoridade. Perde a sua capacidade de análise, pois é forçada a aceitar a análise dos pais. A criança “rebelde” que faz “birras” é aquela que tem mais resistência a sucumbir, que tenta defender a sua integridade nessa luta de poder injusta e cruel.”

⇢ “Com a entrega do bebé numa instituição, muitas vezes sem tempo de adaptação, o bebé é exposto a uma situação traumática que irá deixar marcas para sempre. Um bebé com menos de um ano ou um ano e meio, não tem a noção de que a sua mãe voltará. No momento em que é entregue a outra pessoa, desconhecida, acredita que a mãe o abandonou e sente pânico, como se realmente tivesse sido abandonado.”

⇢ “Pois bem, a realidade é outra: uma criança de um, dois, três anos, numa creche, sente-se abandonada, no máximo insensibilizada perante a sua própria dor; não está, de todo, numa idade em que consiga regular as suas emoções e necessidades de forma autónoma/independente.”

⇢ “Os educadores vivem numa obsessão de juntar as crianças umas com as outras, para “socializar”, criar amizades, “aprenderem umas com as outras”. Desde tenra idade, as crianças são encaminhadas para encontros com outras, desde ginástica para bebés, música para bebés, atividades de grupo, creches, atividades de “tempos livres”, etc. Os adultos fazem enormes esforços para inserir as crianças em grupos de iguais desde muito cedo, pensando que assim aprenderão a socializar. Há a crença profundamente enraizada de que socializar leva à socialização: à capacidade de um relacionamento empático, maturo e tolerante entre seres humanos. Embora esta crença seja popular e todo-poderosa, é apenas uma crença. A criança, como ser humano emocionalmente imaturo, está dependente de forças orientadoras que, através da sua ligação afetiva e do exemplo, a encaminham para a interiorização de valores éticos e morais. Sem um conjunto de valores já bem enraizados na personalidade, uma criança não consegue desenvolver uma relação de profunda amizade com outra da mesma idade (Neufeld, Maté).”

⇢ “Infelizmente, por mais bem-intencionada a educadora ou o professor estejam, é-lhes humanamente impossível satisfazer as necessidades e carências emocionais de 10 ou 20 crianças, para além de isso não constar no currículo do Ministério da Educação.”

⇢ “Refere-se a uma atitude antipedagógica em todas as variantes da vida. Muitas vezes e sem nos apercebermos, extrapolamos uma atitude de manipulação e modificação do outro, típica da atitude pedagógica que nos moldou, para todas as nossas relações interpessoais. Avaliamos, criticamos, exercemos controlo, domínio e coerção. No unschooling, rejeitamos esses modelos de comportamento. Advogamos uma atitude de respeito pela individualidade e de apoio para cada membro da família ou do grupo poder desenvolver o seu máximo potencial. Damos especial relevância às necessidades emocionais de cada membro da família, tentando como máxima prioridade nutrir e salvaguardar o direito à liberdade de cada um.”

⇢ “Ao contrário do que advoga a maioria das pessoas, de que as crianças devem aprender desde cedo qua a vida não é fácil, para estarem preparadas para os problemas da vida adulta, pensamos que não devemos dificultar-lhes a vida agora para que saibam que no futuro também será difícil e desagradável. Pelo contrário, acreditamos que, mostrando-lhes o mundo real com toda a sua beleza, complexidade e irregularidade e satisfazendo as suas necessidades emocionais, estão preparados para viver a vida que desejam.”

⇢ “Com três anos, o Timo tinha um interesse louco por tratores. Vivemos numa aldeia com muitos agricultores e, em breve, ele conhecia todos os tratores da vizinhança e era amigo de todos os tratoristas que o deixavam sentar-se ao volante e mexer nos botões. Descobriu que os tratores tinham nomes (as marcas), e rapidamente sabia as marcas todas, reconhecendo um determinado trator pelo som do motor, mesmo sem o ver! Um dia numa loja encontrou um livro sobre tratores, com fotografias e descrição da marca, do modelo, da potência, etc. Era um livro para adultos, mas ele insistiu que precisava dele. Comprei-o. Tornou-se o livro preferido, aquele que o Timo observava diariamente. Pedia para lhe lermos os nomes dos tratores e todas as informações que mesmo para nós adultos, não nos diziam nada. De repente apercebemo-nos que ele sabia ler! Tinha aprendido a ler sozinho a partir do livro de tratores! Estava tão extremamente interessado nos tratores que sentiu necessidade de aprender a ler para poder descobrir tudo o que estava descrito naquele livro! Ainda não tinha 4 anos.”

⇢ “acriticamente a crença de que apenas numa sala de aula ou num intervalo de vinte minutos num recreio de betão que se realiza a socialização. Nós questionamos isso. Os nossos filhos têm contacto com pessoas de todas as idades. Observam o oleiro e conversam com ele enquanto veem como ele faz vasos e jarras e lhes oferece barro para modelar. Visitam o moleiro e conversam com ele sobre o seu trabalho, ajudando a pesar a farinha na balança verdadeira. Trocam ideias com o agricultor ao lado que os deixa andar no seu trator e lhes oferece regularmente frutos e legumes da sua horta. Brincam com os vizinhos e os amigos de várias nacionalidades, comunicando frequentemente em português, alemão e inglês, não para passar o teste de inglês mas porque precisam de falar inglês com os amigos. Convivem com adultos e crianças de todas as idades, diariamente. Vivem o quotidiano com a sua família, aprendendo valores como a tolerância, a entreajuda, a partilha, o respeito e a empatia através do exemplo dos adultos com quem partilham a sua vida.”

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