A pergunta de ouro: quanto é o suficiente?

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Em geral, há duas estratégias que as pessoas usam para conquistar o bem-estar/felicidade:

a) A estratégia do mais

b) A estratégia do suficiente

A estratégia do mais

A regra é simples: quanto mais, melhor. Simples e altamente difundida, essa estratégia tem um problema: você acaba subindo na esteira da felicidade (hedonic treadmill).

O ser humano tem uma característica que é, ao mesmo tempo, uma benção e uma sentença: adaptamo-nos rapidamente às coisas.

Por isso, quando a ordem é mais, as conquistas geram um pico de felicidade que logo passa. Tem como ser triste em Paris? Tem. Tem como ficar deprimido com 2 milhões de reais na conta bancária? Ô se tem!

Na esteira da felicidade, quando pensamos ter alcançado aquilo que vai trazer bem-estar, voltamos à estaca zero.

A estratégia do suficiente

Na estratégia do suficiente, no entanto, o bem-estar é gerado muito mais por uma situação interna do que por fatores externos, sob os quais não há controle.

Esse método, porém, exige seguir caminhos tortuosos e áridos. Afinal, em vez da ideia de felicidade, a estratégia do suficiente nos leva ao contentamento, uma sensação deveras diferente.

Há alguns meses, tive o prazer de experienciar esse sentimento. Depois de um longo dia de trabalho, jantei com minha namorada e sentamos no sofá para terminar uma taça de vinho. À meia luz, escutávamos um jazz lo fi e brincávamos com nossos dois gatos e cachorro.

Observei aquela cena com atenção e me senti plena. Naquele momento, eu tinha tudo, absolutamente tudo, o que eu queria. Não era mais nem menos, era o suficiente. Eu senti o contentamento que só o ponto certo do suficiente pode gerar. E foi incrível.

Contentamento

O pesquisador norte-americano Daniel Cordaro realizou diversos estudos na área de Psicologia em Berkeley e Yale.

Em 2016, ele pesquisou justamente como a noção de bem-estar é percebida em diferentes culturas e chegou à conclusão de que a busca pelo contentamento, via estratrégia do suficiente, gera mais bem-estar do que a estratégia do mais e a obsessão ocidental pela felicidade.

Segundo ele, há três fatores que facilitam o caminho para entender o que é o suficiente:

  • Praticar o mindfulness
  • Identificar suas contingências
  • Aceitar suas emoções

Gostaria de focar no segundo item, a identificação as contingências:

Defina a sua régua

Desde sempre, entendemos que mais é melhor. Queremos ganhar mais, queremos ser os melhores em nossas profissões, queremos ser percebidos como X, queremos que nossos parceiros e filhos atinjam Y. E pouco paramos para refletir sobre o quanto que X, Y e mais é o suficiente.

Ryan Holiday se debruça sobre o assunto no livro Ego is the Enemy, em que reflete sobre como nossa arrogância e ambição podem ser uma passagem só de ida para a infelicidade. “This is one of the most dangerous ironies of success—it can make us someone we never wanted to be in the first place“, afirma. Por isso, é importante criar a sua própria regra e definir o que sucesso significa para você.

“Find out why you’re after what you’re after. Ignore those who mess with your pace. Let them covet what you have, not the other way around. Because that’s independence.

Demorei para chegar a essa reflexão sobre a estratégia do suficiente em minha vida. Não porque me faltou tempo para pensar, mas porque aprendi que o certo é ter ambições e voar alto, querer sempre mais. Seguir a estratégia do mais gerou angústia e infelicidade em muitos momentos.

Claro que experienciei picos de felicidade ao longo da jornada, mas conforme a esteira girava – e ela gira rápido! – a euforia e sensação de realização logo passava, fazendo com que eu me sentisse incompetente, imprestável, infeliz.

Estou em um processo de definir minhas contingências e construir a sabedoria do meu suficiente. Assim, sigo o caminho pela busca dos meus momentos de contentamento.

Na definição das contingências, comecei pelos itens grana e objetivos profissionais. Depois, parti para bens físicos e viagens. Defini a lista do que quero e montei a minha régua. Agora, é curtir os momentos de contentamento, trabalhar para ser a minha melhor versão e traçar meus planos para “zerar a vida”.

Agora que sei o que quero, aceito a vida como ela é, com suas glórias e sarjetas, de peito e sorriso abertos. Isso é suficiente.