Doismileontem

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Ando encasquetada com o tempo. Não é pra menos, já que este ano faço 30. Desde que fiz 28, algumas questões envolvendo ponteiros de relógio e calendários tem pairado em minha mente, se intensificando a cada dia.

Calculo quanto tempo ainda tenho de convivência com meus pais, levando em conta estimativas demográficas e históricos de família. Surpreendo-me quando me pego mentalmente achando uma pessoa de 30 anos velha – epa, não estou nesse barco? Às vezes ainda acho que tenho vinte e poucos. Flagro a mim mesma caindo no clichê de que a vida é curta – e é mesmo.

Há uns anos li um artigo – não sei se era esse mesmo da NBC, mas foi o único que achei sobre o tema num Google rápido – que dizia que a percepção de tempo é relativa aos anos que já vivemos.

“For a 10-year-old, one year is 10 percent of their lives,” Kesari says. “For a 60-year-old, one year is less than two percent of their lives.” via NBC

Eu lembro quando era pequena e ia viajar para a praia com meus pais, nas férias. Tudo o que eles queriam era deitar e dormir ou simplesmente ficar olhando o mar. Com minha energia infantil, ficar parada era o que eu menos queria, que dirá dormir!

Com um mundo novo pela frente, curiosidades, aventuras… não havia cansaço para descansar. Hoje, beirando os 30, entendo muito bem meus pais – meu reino por uma rede na beira da praia!

“We gauge time by memorable events and fewer new things occur as we age to remember, making it seem like childhood lasted longer” via NBC

Hoje pela manhã acordei tarde. Estava cansada. Tenho dormido mal. Minha cervical não tem sido gentil comigo – ou o contrário… O adulto não se safa: dor na lombar ou na cervical, uma das duas é batata! No auge do meu período sabático, não me importo tanto em acordar tarde, embora tenha tentado manter uma certa rotina. Decidi fazer minha aula de yoga e meditar.

Na meditação guiada, fui conduzida a ver a vida como uma ilha: pessoas, objetos, cenas do dia a dia, do hoje esparramadas pela areia. Ao virar as costas para a ilha, caminhei mar adentro até que os pés não pudessem mais tocar a areia e as ondas me levassem. Nadei, nadei.

Nadei até cansar e mergulhei no oceano. Fui conduzida a um afundar no passado: nas cores desbotadas, cenas, cheiros, sensações. Banhada em um passado que ficou para trás, mas que parece que foi ontem.

Algumas culturas, aliás, entendem o passado como algo que está à frente de nós. Afinal, podemos não só mergulhar, mas ver e reviver o que nos aconteceu: diante de nossos olhos. O futuro, incerto, está longe do nosso campo de visão, logo atrás. É curioso como a linguagem – escrita e gestos – mudam tanto a percepção do tempo, espaço e tudo mais.

Onde fica o passado?

Será que havia mesmo mais futuro no passado?

O foco é no presente. No agora que passa e… foi.

Na beira dos trinta, sinto que tudo foi em milnovecentosenoventhápouco ou em doismileontem. Mas há futuro.