The Dip: quando desistir é um movimento estratégico

| | | |

Review do livro The Dip: A Little Book That Teaches You When to Quit (and When to Stick), de Seth Godin.

Certa vez vi um desenho, dessas que fazem parte do arcabouço da cultura corporativa motivacional, que continha três elementos: um homem com uma pá, uma trincheira e um tesouro.

O homem, suando, carregava uma pá. Ele já havia cavado um bom caminho da trincheira mas, exausto, seu corpo dava meia-volta para desistir da empreitada.

Embora o personagem não soubesse, o erro da decisão era nítido para quem via o desenho: o tesouro estava logo ali, bastava mais um movimento com a pá. Desistir é abrir mão de um tesouro iminente, postulava o desenho.

Desistir é errado”, “desistir é coisa de perdedor”, “nadar e morrer na praia não faz sentido” — todo mundo já ouviu uma dessas. Mas para Seth Godin, um dos marketeiros mais aclamados da era digital, desistir é estratégico.

Essa é a principal mensagem e proposta de The Dip: A Little Book That Teaches You When to Quit (and When to Stick) — O Melhor do Mundo: Saiba Quando Insistir e Quando Desistir, título da edição brasileira.

“‘Quitters never win and winners never quit.’Bad advice. Winners quit all the time. They just quit the right stuff at the right time.”

“Ser bom é subestimado”

Godin inicia o livro mencionando uma tal de “Lei de Zipf”: de acordo com a nossa querida Wikipedia, “trata-se de uma lei de potências sobre a distribuição de valores de acordo com o nº de ordem numa lista.

Em resumo, George Kingsley Zipf, um linguista de Harvard, ordenou a frequência de uso de palavras em Ulisses, de James Joyce, e descobriu que a palavra que mais é usada é MUITO mais usada do que as demais palavras. A partir disso, descobriu que essa regra pode ser aplicada em vários outros contextos.

Zipf analisou a obra monumental de James JoyceUlisses, e contou as palavras distintas, ordenando-as por frequência. Verificou-se que:

a palavra mais comum surgia 8000 vezes;
a décima, 800 vezes;
a centésima, 80 vezes;
a milésima, 8 vezes. (Wikipedia)

Tudo isso para dizer que existe um abismo muito grande entre o número 1 de uma lista e os demais. Ou seja: ser o número 1 em algo é ter mais destaque do que imaginamos.

Top 10 sabores de sorvete nos EUA. Imagem de The Dip.

Isso é um tanto óbvio quando olhamos para o mercado em geral: os livros mais vendidos, os profissionais mais conceituados, as melhores marcas e o melhor produto têm uma larga vantagem em relação ao número 2 — ideia essa que também está presente na teoria da Cauda Longa, popularizada pelo Chris Anderson em artigos e livro — que inclusive, recomendo!

“With limited time or opportunity to experiment, we intentionally narrow our choices to those at the top.”


“Being at the top matters because there’s room at the top for only a few. Scarcity makes being at the top worth something.”

Ser o melhor do mundo — mas qual mundo?

Quando começamos a fazer algo novo — seja um projeto ou habilidade –, estamos animados e aprender o bê-a-bá da coisa é fácil ou, ao menos, possível.

Imagem de The Dip.

Entretanto, à media que você avança, essa coisa vai ficando mais difícil, até que você chega a um estágio desafiador. Para Godin, é aí que está o pulo do gato: esse estágio, que ele chama de “Dip” (mergulho, em português) é o desafio que permitirá uma pessoa ser a melhor do mundo nessa coisa.

“The Dip is the long slog between starting and mastery. A long slog that’s actually a shortcut, because it gets you where you want to go faster than any other path.”


“The Dip creates scarcity; scarcity creates value.”

Mas para tornar um pouquinho menos megalomaníaca essa ambição toda, Godin repensa o que significa ser o melhor do mundo: de qual mundo estamos falando?

“So if I’m looking for a freelance copy editor, I want the best copy editor in English, who’s available, who can find a way to work with me at a price I can afford. That’s my best in the world. If I want a hernia doctor, I want the doctor who is best because she’s recommended by my friends or colleagues and because she fits my picture of what a great doctor is. That, and she has to be in my town and have a slot open. So world is a pretty flexible term.”

A ideia é que não há mais uma barra de qualidade global, mas zilhões de micromercados com suas necessidades e padrões de qualidade: e se você conseguir ser o melhor em um desses, atingiu seu objetivo em cheio!

“People settle. They settle for less than they are capable of. Organizations settle too. For good enough instead of best in the world.”

Should I stay or should I go?

Certo, entendemos que ser o melhor em um micromercado é o objetivo proposto por Godin. Mas e se eu quiser desistir? Se essa habilidade ou projeto for interessante, mas não o suficiente para eu querer ser o melhor nisso?

O movimento mais sábio para ser o melhor em uma coisa é desistir de ser o melhor em várias outras coisas. O bom e velho: mantenha o foco.

“Strategic quitting is the secret of successful organizations. Reactive quitting and serial quitting are the bane of those that strive (and fail) to get what they want. And most people do just that. They quit when it’s painful and stick when they can’t be bothered to quit“.

Além de entender quais empreitadas deixar de lado, é necessário sabedoria para entender se o estágio difícil é um “Dip”, que traz um tesouro no futuro, ou um “Cul-de-Sac” (beco sem saída, em português), que não te leva a lugar algum.

Imagem de The Dip.

Afinal, continuar cavando uma trincheira sem tesouro é tão ou mais inútil que se conformar em ficar na média. E é nesse segundo caso que pesam o orgulho e a sensação de sunk cost: “poxa, mas já investi tanto tempo e energia nisso… vou desistir agora?

Stick with the Dips that are likely to pan out, and quit the Cul-de-Sacs to focus your resources. That’s it.

“It’s okay to quit, sometimes. In fact, it’s okay to quit often. You should quit if you’re on a dead-end path. You should quit if you’re facing a Cliff. You should quit if the project you’re working on has a Dip that isn’t worth the reward at the end. Quitting the projects that don’t go anywhere is essential if you want to stick out the right ones. You don’t have the time or the passion or the resources to be the best in the world at both.”

Imagem de The Dip.

The Dip são ~85 páginas que poderiam ter sido resumidas em 10, com reflexões interessantes sobre como o ato de desistir é estratégico para que possamos manter o foco no que realmente importa e sobre como dar murro em ponta de faca é inútil.

The Dip não é nada que a sabedoria popular já não tenha dado conta, mas traz boas considerações, especialmente se você está em uma situação de “Dip”; ou seria um beco sem saída?


Three Questions to Ask Before Quitting:

Am I panicking? Quitting when you’re panicked is dangerous and expensive. The best quitters decide in advance when to quit. Wait until you’re done panicking to decide.

Who am I trying to influence? If you have a well defined person you’re trying to influence and they’re not listening, it may be time to quit. But when it’s a whole market, there are plenty of other people you could try to influence. Influencing a market is a hill you have to climb.

What sort of measurable progress am I making? If you’re trying to succeed in a job or a relationship or at a task, you’re either moving forward, falling behind, or standing still. There are only three choices.”

One Comment

Comments are closed.